quinta-feira, dezembro 5

UNIDADE, LUTA E PROGRESSO

UNIDADE, LUTA E PROGRESSO    
  

INTRODUCÃO



A população da Guiné-Bissau passa por uma crise existencial: a sensação de que no passado se vivia melhor. Porem a história e as estatísticas, no entanto, mostram que nunca teve uma vida próspera naquele país.

 As pessoas vivem menos, têm menos acesso à educação e, o impensável é que os desejos mais extravagantes baseada no consumo se realizam como nunca.

Quarenta anos atrás, os objetivos pos-independencia residem na falsa sensação de ser dono de si. Hoje, restou o sentimento de que temos alguns incompetentes, travestidos do que a população chama de “QUADROS”, que não tem a mínima instrução pratica, pouca sensibilidade e a patente falta de espírito de boa governança. No entanto, por outro lado, verifica-se que também temos aqueles que sofrem da impotência, ou seja, aqueles que querem ajudar, mas se sentem privados, furtados, proibidos, ameaçados e impedidos de realizar suas ações.

 Apesar de todos esses avanços e desavanços, podemos identificar que na nossa Bandeira Nacional existem três frases instigadoras, são elas UNIDADE, LUTA E PROGRESSO, que consagrou a unidade nacional e extirpou os imperialistas do século passado. O paradoxo que se denota, é a sensação crescente de que tudo o que se conquistou com lema acima mencionado, hoje, não passa de um simples TEXTO, sem o mínimo axiológico. Segundo Henri Bergson “O Olho vê somente o que a mente esta preparada para compreender”.

Em seguida, passo a discorrer sobre o conceito axiológico destas três (3) belas e delicadas frases tatuadas na nossa bandeira nacional.

1.     UNIDADE
 
 A palavra Unidade tem origem no termo latim “unitas” e designa a qualidade do que é único ou indivisível, e ficou consagrado na carta maior da republica da Guiné-Bissau no seu artigo 1º:
A Guiné-Bissau é uma República soberana, democrática, laica e UNITÁRIA.

 Frase esta, que significou inicialmente para os guineenses, a profunda conexão com passado histórico, isto é, momento em que se deu a mobilização de indivíduos para luta armada, estes que sabiam claramente que a maioria deles não sobreviveria na batalha, mas na esperança de futuro melhor para gerações supervenientes, se doaram e nos trouxeram a consciência de agir uns para com os outros em espírito de união e fraternidade.

Infelizmente, a unidade nacional nos seus termos atuais liga-se aos problemas decorrentes de varias revoluções armadas iniciadas a mais de duas décadas, e que foram claramente desnecessárias, e totalmente subjetivas nas suas razões e origens a um determinado grupo que nunca representou a maioria esmagadora de população e que não foram resolvidas até então.

A ruptura deste principio de união, ameaça o caráter unitária da nação, sendo que a transformação da estrutura interna  e da vida sensitiva do Estado  afasta do povo o controle politico, ou seja, a falta soberania popular, o destino do Pais permanece no terreno de relações de força.

Origem de tudo se deve a falta de liderança nas instancias superiores do Estado, falta de políticos de inegável carisma que conseguem exercer suas influencias na mobilização da base popular, fazendo ressurgir o espirito da Unidade, ou seja, falta poder de direção e de Comando.
Assim, luta pela unificação deve se basear no controle democrático daquele setor da vida politica que esteve, ate então, abandonado ao embate negocial, o povo. A perspectiva, hoje, seria aperfeiçoar meios para realização de escolhas democráticas e decisão da comunidade em transformar a situação através do sufrágio universal com equilíbrio e paz.
Vejamos o que o texto constitucional diz no seu artigo 3º, 1:
 A República da Guiné-Bissau, é um Estado de democracia constitucionalmente instituída, fundado na unidade nacional e na efetiva participação popular no desempenho, controle e direção das atividades públicas, e orientadas para a construção de uma sociedade livre e justa”.
Deparamos com a distorção ética que passou a vigorar no país nos últimos anos, Vivemos uma cultura que privilegia falsa vitória, falsa ordem, falsa estabilidade, falsa democracia acima de tudo, e, encoraja a desonestidade, são estes conjuntos de adjetivos que pioram e estacionam a vida da população.
De sorte que, na minha conclusão em relação à falta de Unidade na sua concepção inicial, deve-se a falta de motivação.
Na área da psicologia, Maslow e McClelland criaram suas teorias para motivação. Maslow disse que o homem se motiva quando suas necessidades são supridas, como a auto realização, autoestima, necessidades sociais, segurança e necessidades fisiológicas. McClelland, indicou três necessidades que são essenciais para a motivação: poder, afiliação e realização.
Enfim, para ter a unidade precisamos nos motivar unir as forças e os objetivos, com a mesma inspiração que há mais quatro décadas houve a convergência popular/combatentes para libertação nacional.

2. LUTA
 
 O termo Luta se revela ambíguo, muitas vezes isto se deve ao fato de ser usado em contextos diversos, podendo ser luta de mobilização para combater determinada situação pontual, ou, por outro lado, apresenta-se como a teoria de atuação concreta que deve ser perseguida insistentemente, diuturnamente, ou seja, uma ideologia que deve encarnar instituições politicas e as estruturas sócias do país.
A proposta fincada atualmente na Guiné-Bissau e nos últimos 40 anos, quando se trata da palavra LUTA, desvirtua-se claramente da projeção feita pelos verdadeiros combatentes da pátria, estes que hoje sofrem de abandono, desamparo estatal e da sociedade em geral.

Segundo nosso legislador, no artigo 5º, 1 e 2, a):

1 - A República da Guiné-Bissau proclama a sua gratidão eterna ao combatente que, pelo seu sacrifício voluntário, garantiu a libertação da Pátria do jugo estrangeiro, reconquistando a dignidade e o direito do nosso povo à liberdade, ao progresso e à paz.
“2 - A República da Guiné-Bissau considera como sua honra e dever:
a)                      - Agir no sentido de garantir uma existência condigna aos combatentes da liberdade da Pátria e, em particular, àqueles que pelo facto da sua participação na luta de libertação sofreram uma diminuição física que os torna, total ou parcialmente, incapazes para o trabalho e que são os primeiros credores do reconhecimento nacional(...)”

A expressão do texto da nossa carta maior designa os mais importantes desafios do Estado, e são à base de toda e qualquer sociedade que se pretende ser justa e igualitária. Entre eles, temos a Luta pelos Direitos Civis (de igualdade perante a lei e de ir e vir, por exemplo); Direitos Políticos (à liberdade de reunião; de associação; de votar e ser votado, entre outros), Direitos Sociais (à previdência social; à saúde), Direitos Culturais (à educação), Direitos Ambientais (de proteção, preservação e recuperação do meio ambiente), Direitos Econômicos (à moradia; ao trabalho; à terra).

 De forma singela, o poeta Bob Marley cantou assim:

“É melhor atirar-se à luta em busca de dias melhores, mesmo correndo o risco de perder tudo, do que permanecer estático, como os pobres de espírito, que não lutam, mas também não vencem que não conhecem a dor da derrota, nem a glória de ressurgir dos escombros. Esses pobres de espírito, ao final de sua jornada na Terra não agradecem a Deus por terem vivido, mas desculpam-se perante Ele, por terem apenas passado pela vida”.

Os guineenses derrotaram o colonialismo português em todas as frentes: militar, política e diplomática. No entanto, me parece injustificável a nossa incapacidade de não conseguir vencer a luta pelo desenvolvimento, miséria, pela democracia, justiça social, pela dignidade das pessoas, etc. Temos obrigação de consagrar as aspirações daqueles que nos deram a tão sonhada liberdade/independência, que de forma exemplar conseguiram a UNIDADE, sacrificaram na LUTA, para tanto, a conquista de PROGRESSO é o nosso dever.


3. PROGRESSO
 
 Nos últimos anos, a ideia de progresso sofreu duro golpe, que pode representar também uma possibilidade de sua recuperação, pois a nossa historia percorreu um caminho descontinua estimulado pelas gritantes falhas na sua utilização, onde sempre ficou em segundo plano.

No início do século passado, o filósofo alemão Oswald Spengler imprimiu um tom pessimista à teoria do progresso. Para ele, “o progresso, seria um ser vivo, passa por fases DE CRESCIMENTO, MATURIDADE, DECADÊNCIA E MORTE”.

 A pergunta é o seguinte, Guiné-Bissau encontra-se em qual fase?

Acredito que estamos na etapa de maturidade, e o proposito deste progresso seria nunca entrar nas duas ultimas fases (decadência e morte), ou será que já estamos nas duas ultimas fases? Minha resposta é negativa para segunda hipótese.

No século XIX surgiu uma corrente de pensamento chamada positivismo, que teve o filósofo francês Auguste Comte como um dos seus defensores mais importantes. Ele defendia que o progresso era a uma das únicas saídas para a evolução da humanidade, sendo que as especificações dos valores tomados como medidas ou critérios de progresso são sempre necessários, porém não devemos cair na armadilha do relativismo total, ou, na crença de um progresso absoluto.

Refletir sobre progresso implica celebrar o passado e traçar estratégias para avançar e monitorar, em um processo dinâmico, de alianças e definição de fronteiras entre atores da sociedade civil e o Estado.

Acompanhar a trajetória dinâmica da evolução nacional em busca do progresso permite compreender como a conquista da visibilidade social, o seu reconhecimento legal e a sua tradução em políticas públicas concretas, são frutos de uma luta política e da coletividade.

É necessária que haja uma permanente mobilização social no sentido de que direitos e princípios assegurados em leis e tratados internacionais se traduzam em comportamentos. Precisamos difundir e conhecer as leis, os planos, programas, pactos e outras iniciativas governamentais. Tomar ciência destas politicas é fundamental para assegurar a aplicação efetivo dos direitos neles garantidos.

Como definir estratégias para operacionalizar o que já existe? Como educar a sociedade? Como tornar a cidadania uma prática cotidiana? Como recorrer a legislações e mecanismos nacionais e internacionais de direitos humanos? Como proteger a Democracia? Como conquistar progresso? Estas questões são centrais na construção de agendas progressistas.

Assim o filosofo e advogado do antigo império Romano, Sêneca, descreveu a real importância do progresso:

“a parte mais importante do progresso é o desejo de progredir”.

Ainda, de forma sutil o escritor Frances Julien Green deu esta definição:

 “Único verdadeiro progresso é o progresso que muda interior das pessoas, sendo o progresso material um nada.”

A obrigação do Estado de garantir o progresso é absoluta e inescusável, da mesma forma que cabe à sociedade colaborar e exigir o cumprimento do previsto na nossa Constituição nacional como forma de preservar o que foi conquistado há mais de 40 anos, e, também, de assumir a obrigação de lutar para garantir um futuro digno para as próximas gerações.

CONCLUSÃO
 
 Desta feita, se conclui claramente que a Regressão social e econômica da Guiné-Bissau tem como responsáveis únicos e exclusivos a população em geral, políticos ou não, pois houve, infelizmente, clara distorção das frases UNIDADE, LUTA E PROGRESSO, para tanto, precisamos retornar as origens, refletir sobre e extrair a essência que motivou sua colocação como parte do símbolo nacional. 

Deixo para reflexão a frase poética do francês Auguste Comte:



“O Amor por princípio e a Ordem por base, o Progresso por fim.


Maringá-Pr, Brasil 2013


Ronelson Furtado Balde
Advogado

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